IMERSÃO EM UMA CARREIRA SINGULAR

Jocy de Oliveira é duplamente vanguarda; um, mas não necessariamente o primeiro motivo, por ser uma mulher em um universo ainda não completamente aberto ao poder criador do sexo dito frágil, porém forte; dois, por ser de fato a compositora em atividade com um universo sonoro dos mais instigantes, tanto em proposta, como em concepção, nos materiais utilizados e na originalidade dos resultados obtidos. Uma merecida retrospectiva de sua obra, de 1961 até agora (sim, porque, mesmo aos 72 anos, a vitalidade criativa de Jocy parece inesgotável) se realiza até 25 de maio no Espaço Cultural Oi Futuro. Denominada Imersão, descreve à perfeição a sensação que se tem ao mergulhar no mundo plural da produção da artista, que funde as linguagens sonora, plástica e virtual produzindo uma obra que permanece em constante renovação, ligada por uma linha conceitual de profunda integridade. É esta interligação que se faz presente nas instalações Noturno de um piano e A bolha, onde passado, presente e futuro se entrelaçam em diversos níveis, desde o da própria obra da compositora até a arte/vida em seus múltiplos aspectos, culminando no conceito de obra aberta presente em Teatro Probabilístico. Peça multimídia interativa dos anos sessenta, sua releitura atual substitui os intérpretes do primeiro momento pelo público que, ao caminhar por uma cidade-partitura imaginária, constrói a cada instante novas sonoridades resultantes da fusão aleatória de múltiplos sons difundidos, ativados por sensores.

Esta imersão foi coroada com a estréia de sua pocket opera Solo, que encerrou, neste domingo, temporada de seis récitas. Ao revisitar a sua produção teatral em Solo, Jocy intensifica as experiências vividas nas instalações e em suas obras anteriores. Prescindindo de narrativa linear, recria o imaginário feminino sustentando-se em figuras míticas como Ofélia, Desdemona, Medea e a Diva. Os materiais sonoros e cênicos usados por Jocy tornam-se símbolos que, ao interagirem, sofrem constantes mutações à procura de novos significados. A espacialização do som, os cenários virtuais e a iluminação como próprio objeto cênico favorecem o mergulho no universo existencial da peça, cujos sete segmentos ininterruptos se fundem em um discurso estético que se auto-fecunda. A voz que dá vida às personagens arquetípicas se apropria de uma diversidade ímpar de linguagens, desde a linha clássica de canto lírico, contudo sem o uso de escalas pré-estabelecidas ou mesmo sem delinear melodias, atingindo regiões extremas da tessitura do soprano com efeitos de grande expressividade e impacto, até a fala como toda uma gama de sons possíveis à voz humana. Neste contexto, dentre várias circunstâncias, Ofelia presa às cordas do piano executa vocalizes, mas somente se desvencilha com a emissão de ruídos; a sonoridade das vagas, ao submergir o piano-ícone, sufoca fragmentos de peças mozartianas que cintilam cada vez mais espaçadas; Medea verte seu próprio sangue contra a dominação sexual/ideológica/cultural, assim como sua própria voz, do grito ao acalanto, reforçada por instrumentos étnicos; e a Diva tem sua voz aprisionada/dilacerada em sua própria projeção no amado. Neste último segmento, fragmentos de Maria Callas cantando a ária Bel Raggio Lusinghier, do compositor belcantista Rossini, traz nova dimensão à semântica do que se vive em palco, assim como a excelente participação em vídeo da indiscutível grande dama Fernanda Montenegro. A voz que incorpora, o corpo que personifica as múltiplas facetas da obra é Gabriela Geluda, jovem soprano e atriz que, de biotipo mignon, torna-se gigante em cena pelo carisma, fortíssima presença e uma voz excepcional embasada em sólida técnica, que lhe permite enfrentar as difíceis exigências vocais com resistência incomum. Sua integração ao universo artístico de Jocy de Oliveira é total, percebendo-se a unicidade que se forma entre intérprete e criação.

Novas audições se impõem, para que novos significados se abram. Aí reside um dos marcos da contemporaneidade na obra de Jocy de Oliveira: nela, não há apenas uma dimensão, mas várias, resultantes da interação de cada um, com suas próprias percepções, ao rico mundo sensorial da criadora. Hermética, radical, para iniciados? Não, pelo contrário, a obra de Jocy é mais do que aberta, por isso mesmo tão plural. Iniciem-se!

(Rodolfo Valverde, JORNAL DO BRASIL, Rio de Janeiro, 2008)