A VOLTA DOS MITOS PARA O NOSSO TEMPO
Festival de Ludwigshafen: A ópera Kseni - A Estrangeira, de Jocy de Oliveira, com Sigune von Oste. Aquilo que, no texto do grego Eurípides, aconteceu 431 antes de Cristo, é interpretado pela compositora e diretora brasileira Jocy de Oliveira como um ato de dedicação. Em seu drama musical Kseni, a estrangeira, inspirada em uma balada medieval de trovadores, Medeia, a emigrante, assassina seus filhos por amor para poupá-los do sofrimento da exclusão e do desprezo em um mundo hostil. Um mito transposto para a realidade dos nossos tempos, traços longamente apagados, deixados para trás como a pele de uma cobra, mas apesar disso um sinal presente de uma origem cruel, que não se deixa nomear mesmo quando relacionada a um ato tão monstruoso.
A peça apresentada no Corso Film Theater durante o Festival de Ludwigshafen com a excelente Sigune von Osten, à qual o papel de Medéia foi dedicado, e o maravilhoso conjunto Art Point Ensemble, revelou ser o imbricamento eterno entre passado, presente e futuro. Durante uma hora de apresentação, o público se move entre o silêncio, o som e a luz, cuidadosamente inserido no reino dos sentidos que parece estar ligado aos antigos oráculos, cujas “verdades”, no entanto, se tornaram mais diretas e perscrutáveis na modernidade.
São mensagens arcaicas, geralmente acompanhadas por instrumentos delicados (clarineta, violoncelo, tambura,, percussão), complementadas pelos instrumentos-escultura de Ursula Haupenthal e pela voz infantil de Nicolai Schneider. Muitas vezes, são sons orientais que se adensam esporadicamente para formar uma estrutura rítmica, como se a compositora não quisesse abrir mão totalmente da lógica e da compreensão harmônica em sua viagem de emigração rumo ao flutuante.
Diz-se que, às vezes, a volta dos mitos se transforma em recaída rumo a uma história supostamente melhor. Um risco a que essa noite nem sempre escapa. Em compensação, ele nos presenteia com uma delicada teia de muitas idéias e associações que provam que a razão esclarecida e a magia escura às vezes podem estar surpreendentemente próximas uma da outra.
(Alfred Huber, MANNHEIMER MORGEN, 29/10/2007)

MEDÉIA NÃO É NENHUM ANJO
Ópera no festival de Ludwigshafen: Sigune von Osten apresentou, no Corso-Filmtheater, a peça Kseni – Die Fremde (Xenia, a estrangeira) da compositora brasileira Jocy de Oliveira. Depois dos concertos em que a peca foi parcialmente apresentada - em Dresden (2002) e Berlim (2005) - Ludwigshafen acabou sendo o palco da estréia européia da versão cênica da ópera.
Medéia, a feiticeira mítica e devoradora de criancinhas, com a sua partida fulminante na carruagem de fogo, é um prato cheio para feministas. Mulheres traídas e excluídas, diante do pano de fundo do problema da migração, estão na crista da onda. Jocy de Oliveira, que além da música assina ainda o texto, o conceito, o vídeo, o áudio e a direção, sabe como transpor este assunto para o palco em uma concepção minimalista. Ela escreveu Xênia especialmente para a voz de Sigune von Osten. Impossível não perceber isto. Com seus agudos trágicos, ela vai buscar o ouro mágico do fundo das baladas terríveis, desfia toda uma gradação de sons – canta, fala, faz acrobacias com a faringe, balbucia, grita, cacareja, emite gemidos arcaicos.
Tudo é denso nessa peça dividida em cinco partes, entrecortada por inserções de áudio e vídeo, efeitos luminosos e instrumentos exóticos: a mensagem, o traje estranhamente rasgado e a maquiagem branca no rosto da cantora/atriz.
Medéia, a estrangeira, que veio de longe, não é nenhum anjinho. Ela representa – e o anuncia – o Terceiro Mundo diante das portas fechadas, um vaticínio. É ela quem carrega em seus ombros escuros todo o peso do mundo - as guerras, as destruições ambientais, a fome, a exclusão. A mulher (o ser humano) a quem não é permitido ser o que é. Aquela que não é tolerada, que precisa assassinar os seus filhos para que estes não sofram o mesmo destino da humilhação e da exclusão.
É uma lição de moral algo exagerada para uma hora de espetáculo. Somente na quinta parte, quando se ouve uma antiga balada francesa, volta um pouco de tranqüilidade para esta litania entremeada pela acusação incessante e pelo gemido de mil vozes. Finíssimas teias sonoras, um colorido exótico, um solo de cello de uma contemporaneidade calorosa, ao lado de explosões frias e inclementes da percussão com instrumentos exóticos – é assim a música de Oliveira totalmente desconstruída que conta dramas psicológicos inteiros em um breve espaço de tempo, maravilhosamente bem executada pelos seis excelentes membros do Art Point Ensemble.
(Sigrid Feeser, DIE RHEINPFALZ, 29/10/2007)

KSENI – A ESTRANGEIRA, A NOVA OPERA DE JOCY DE OLIVEIRA
ESTRÉIA DE “NHERANA” NA BAYERISCHER RUNDFUNK, MUNIQUE
Nherana- música de camera de Jocy de Oliveira é construida de memórias como estruturas em camadas unindo cantos folclóricos processados e abrangente cores na percussão contrastando a tradição europeia e resultando em impactante originalidade.
(Ralf Dombrowski, SÜDDEUTSCHE ZEITUNG, Munique, 21/02/2007)

Jocy de Oliveira cria uma Medéia estilizada, uma combatente contra o imperialismo, a guerra, a opressão e a globalização. Não se observa sinais de escrúpulos no infanticídio que já não tem efeito trágico, mas torna-se bastante impactante.
A sofisticada partitura está recheada de sinais e indicações de interpretação. A parte do solo – escrita especialmente para Sigune von Osten – alterna entre canto, fala, sussurros, gritos e soluços. As harmonias têm caráter meditativo, integrando de maneira orgânica a antiga balada medieval Medee fu e referências à ópera Otello, de Rossini fazendo com que ambas não pareçam materiais estranhos.
(Andreas Hauff, DER NEUE MERKUR, Wien, 2007)

Concerto que sera apresentado no SESC Pinheiros, estreou na noite de quinta feira no Teatro Carlos Gomes, no Rio.
A estréia de uma nova opera é sempre um acontecimento. Ao longo do século 20, o gênero foi tratado `as vezes com desconfiança pela vanguarda. Novos títulos rarearam. Somente nas últimas décadas a produção voltou a crescer. Mas essa retomada traz em si uma pergunta inevitavel : depois de todas as inovações propostas pela vanguarda, depois de tantas escolas estéticas que redefiniram a própria noção que se tinha de música, o que seria uma opera hoje, nos primeiros anos do século 21? Pode-se passar horas – e muitas e muitas páginas de jornal – tentando encontrar uma resposta. Mas só há uma maneira de saber: compositores precisam escrevê-las e, para isso, saber que os teatros estarão dispostos a produzi-las. E, a partir daí, é o prazer do público ver como cada autor – de acordo com sua tragetória, as escolas estéticas com que flertou, o caminho pessoal que encontrou – dialoga com este gênero, que jamais deixou de fascinar platéias.
“Kseni A Estrangeira” é bastante representativa do trabalho de Jocy de Oliveira não apenas por ter como ponto de partida uma figura feminina mas também por reiterar sua busca “por uma nova linguagem cênico / musical, tentando encontrar novos modelos de estruturas que possam vir a transformar o concerto tradicional de ópera ou musica- teatro”.
O tema central da obra é a diferença – e a intolerância por ela provocada. Para isso, ela resgata a figura de Medeia, personagem da mitologia grega que, casada com Jasão, é trocada por uma princesa e e banida de Corinto. Como vingança enfeitiça o vestido de noiva da princesa e mata os próprios filhos. Para Jocy, Medeia é o símbolo da mulher “transgressora, desterrada, imigrante, denegrida, discriminada”,” que preferiu levar em seu carro de fogo a alma de seus filhos mortos a deixá-los como parte de um mundo que lhe havia negado o direito de ser diferente”.
Daí o pulo para nossa época, que , pelo filtro da compositora, é recriada sob o signo da intolerância:vivemos a época da “invasão pela riqueza natural”, da “destruição da identidade”, da cruzada da paz , que abandona `as margens os feridos, apátridas, em nome de códigos de comportamento”, da “discriminação de povos por suas crenças”. Não é preciso muito para ler, em trechos como os descritos acima, alusões `as guerras no Afganistão e no Iraque e suas implicações econômicas ou ao racha ideológico entre Ocidente e Oriente e o preconceito que dele foi uma das consequências mais imediatas.
E como esta proposta se traduz em opera? “Kseni – A Estrangeira” não segue nenhuma linearidade. Não há uma trama, um enredo, um encadeamento de ações. A narrativa é fragmentada, trabalhando simultaneamente com diversos signos relacionados tanto ao mito de Medeia como `a concepção contemporânea de Guerra. O pedido “Libera” proferido pelo filho de Medeia (interpretado por Henrique Tinoco) é também o pedido de libertação de nossa época: da mesma forma, a queima do vestido de noiva da princesa com quem se casaria Jasão pode ser lida como a queima simbólica da mulher submissa, que por sua vez, não deixa de ser a representação de sociedades que abrem mão de suas individualidades em busca de inserção no mundo globalizado. É, mais do que em uma preocupação narrativa, neste diálogo entre as duas épocas, entre a tragédia grega e os estímulos do mundo atual, que se constroi “Kseni- A estrangeira”.
E esse diálogo se apóia em diversas mídias. Musicalmente o ponto de partida é uma melodia medieval anônima que tem como tema o mito da Medeia. Ela vai sendo manipulada ao longo de toda a obra (assumindo tons ora rituais, ora nostálgicos e em outros momentos, revestida de caráter etéreo que beira a inconsciência) por um conjunto musical composto por violoncelo, clarineta, clarone, guitarra elétrica, tambura, percussão etnica; pela voz da soprano (a fantástica Sigune von Osten), muitas vezes explorada como um instrumento de percussão; por audio pré – gravado; e por estruturas metálicas das quais se obtém sons seja pelo contato com as mãos, seja por meio do arco tradicional de instrumentos de cordas.
Mas a música é parte do espetáculo. Não dá para pensar Kseni sem a direção de arte de Jum Nakao e Kiko Araujo, a cenografia de Fernando Mello da Costa, a atuação da atriz Marilena Bibas ou os videos dirigidos pela própria compositora. É nessa unidade de elementos que a gente encontra a proposta de ópera oferecida por Jocy de Oliveira. Música, cena, figurino – uma coisa não é decorrência da outra. Todos os elementos surgem em conjunto. E, com isso, a partitura ao mesmo tempo em que nos propõe uma reflexão sobre os caminhos do mundo, propõe também uma discussão sobre os próprios conceitos de música, de teatro, se distanciando do conceito tradicional de ópera, e ao mesmo tempo, ao propor uma obra de arte que tenta englobar os mais distintos elementos, resgatando aquilo que faz dela um gênero tão especial. Sem paradoxos.
(João Luiz Sampaio, O ESTADO DE SÃO PAULO, 5/10/2006)

FIM PREMATURO DE UMA DIVA
Ópera “As Malibrans da compositora brasileira Jocy de Oliveira no Staatstheater Darmstadt O Ensemble Jocy de Oliveira apresentou sua opera enfatizando o lado escuro da vida de uma Diva.
Como ponto de partida a obra enfoca o destino da cantora Maria malibran e sua triunfal carreira no inicio do seculo 19 interrompida por uma fatal queda a cavalo.
A peça presenta uma total integração entre a musica eletroacustica e musica instrumental/vocal em tempo real alem de projeções em video, criando uma ambientação “avant garde” extremamente bem estruturada.
Nossa percepção auditiva e visual é estimulada por fantásticas impressões através de cenas que se desenvolvem entre ações no palco e projetadas em video.
Especialmente impressionante foi a Fanfarra Funebre quando eletrificantes sons eletroacústicos são mixados a execução ao vivo de instrumentos de sopro criando um efeito poderoso.
Na ultima cena vivenciamos uma Diva em seu monumental pedestal emprisionada por cabos, como uma marionette em seu ultimo lamento.
Assim a compositora Jocy de Oliveira cria um efeito extraordinário A bem sucedida apresentação obteve longos e unanimes aplausos. Em Outubro esta produção continuará em cartaz quando Birgitta Trommler e Jocy de Oliveira apresentaram uma nova versao da opera “Mais estranho do que ficção – Maria Malibran”com o elenco do Staatstheater Darmstadt
(Klauss Trapp, DARMSTADTER ECHO, Darmstadt, 29/05/2000)

Uma agradavel atmosfera na peça de Jocy de Oliveira evoca a tranquilidade da música indiana com delicados e brilhantes filigranas, sons continuos e repetições em forma de "delays".
(John Rockwell, NEW YORK TIMES)

Do ponto de vista puramente musical, Jocy de Oliveira exerce um poder de persuassão próprio dos mestres. A composição (Inori `a Prostituta sagrada) é original, sem ofensa `a tradição. … Não há precedents de tal força criadora e desse nivel de desenvolvimento e domínio da técnica em mãos femininas, a não ser no caso Baciewicz, na Polônia.
(Antonio Hernandez, O GLOBO, Rio de Janeiro)

"ESTORIA" é uma composição fascinante e extremamente bem escrita. Uma valiosa e impactante contribuição ao gênero musica teatro.
(C. Mitze, ST. LOUIS GLOBE DEMOCRATIC)

Mesmo aqueles não iniciados em linguagens experimentais puderam sentir e captar o fascinio da peça (Illud Tempus).
Jocy de Oliveira faz admiravel uso da midia dam úsica experimental.
A fantástica experiência que sentimos durante estes breves 45 minutos é incrivel...
(Valentin Schonherr, LATINAMERIKA NACHRICHTEN, Berlin)

A música de Jocy de Oliveira é sensivel, evocativa, fantástica, luxuriante em puro som.
(H. Schonberg, New York Times)

Uma das mais fascinantes artistas de hoje.... Suas peças multimidias foram responsaveis por uma grande audiencia de musica contemporânea no Brasil. Aqueles que ouviram "Inori" puderam conhecer o milagre da sua musica.
(Marcos Savini, JORNAL DE BRASILIA)

As cores,movimentos,sons e efeitos crescem até atingirem a magia que Jocy de Oliveira exerce sôbre o público. É assim que ela reflete sua maestria.
(Waltraud Schwab, DIE TAGEZEITUNG, BERLIN)

Jocy de Oliveira bastante conhecida no Canadá pelos seus excelentes discos, apresentou um programa de suas obras com uma fascinante atmosfera.
(Arthur Kaptainis, GAZETTE MONTREAL)

Jocy de Oliveira encantou sua exepcionalmente entusiasta plateia criando um hipnótico e místico espaço nesta apresentação.
(B.M., THE DAILY TELEGRAPH)